
O professor Victor Rodrigues, natural de Machico, exerce as funções de Director Técnico, na Associação na Regional de Triatlo da Madeira da Região, sendo docente na Escola B+S Bispo Dom Manuel Ferreira Cabral – Santana.
É igualmente o Presidente da Direcção da Associação Regional de Triatlo da Madeira.
- Quais os objectivos do triatlo juvenil madeirense para a época de 2009 / 2010?
Os objectivos para o Triatlo Juvenil, na Madeira, prendem-se sobretudo com a criação de condições de trabalho e possibilidade de utilização de espaços de treino pelos diversos clubes locais. Pelo facto do Triatlo Jovem existir oficialmente apenas à três anos, existe ainda um “fosso”, entre a capacidade de trabalho e de mobilização entre os clubes do Continente e os regionais. Julgamos que as diferenças tendem a ser menores, mas será necessário a continuação do trabalho de qualidade que está ser desenvolvido em alguns clubes da Madeira, para que dentro de dois a três anos, os atletas, possam lutar de igual para igual, com os colegas do Continente.
Os objectivos concretos dos três clubes escola existentes e dos outros dois que se irão juntar em 2010, passa pala formação desportiva e técnica na modalidade, sem descurar de forma alguma o conciliar da escolaridade dos diferentes atletas com a prática desportiva. Os objectivos de âmbito competitivo versus resultados, são importantes para os diversos clubes, sobretudo em termos regionais, mas no âmbito nacional não são prioritários.
Relativamente à participação de um maior número de atletas jovens nas competições, todos os clubes e a ARTM, estão a trabalhar no mesmo sentido, visando o aumento de número de participantes jovens nas actividades do Triatlo Juvenil, mas dentro dos parâmetros de formação desportiva e social desses jovens.
- E relativamente a participações internacionais, com triatletas não seniores?
Os objectivos dos atletas madeirenses, nessa área, são muito comedidos. Como referi o Triatlo só existe oficialmente na Madeira à três anos, razão pela qual è prematuro tira ilações precipitadas sobre a possibilidade de termos atletas não seniores em competições internacionais e de forma regular. Existem alguns talentos locais que estão ainda no “início” do seu processo de formação e outros que estão a emergir na competição regional. O caminho para patamares qualitativos de excelência que leve estes atletas a competir regularmente, por uma selecção nacional, é longo e muito difícil, mas não é impossível.
Outro factor condicionador da evolução estes atletas, é o facto de neste momento terem poucas possibilidade de competir regularmente fora da Madeira, o que condiciona a sua evolução.
O Tiago Silva, é um caso à parte, visto que este atleta atingiu um patamar de excelência no Duatlo, de forma muito rápida, fruto do rápido “transfer” realizado pelo atleta, na passagem do ciclismo, para o Triatlo, mas concretamente para o Duatlo
- A ARTM tem alguma proposta para apresentar ao Governo Regional, no âmbito do PAPEP-Proposta de Apoio a Praticantes de Elevado Potêncial?
A ARTM, dispõe desse mecanismo legal, que lhe permite apresentar candidaturas no âmbito do programa PAPEP. Contudo a coerência aconselha que esses passos sejam dados em comunhão por várias entidades, ARTM, Clubes, Técnicos, Pais e Atletas, de forma que a possível integração de atletas neste programa, represente uma possibilidade de evolução real desses atletas, para patamares desportivos mais elevados. Existe já por parte da Equipa Técnica da ARTM, um conjunto de atletas “sinalizados” que estão a ser seguidos, com potencial para integrar uma candidatura a um programa de apoio específico no próximo, como é o caso do PAPEP
- Qual a situação da comunidade escolar em relação ao Triatlo?
Estamos a dar os primeiros passos neste sentido. Como é do conhecimento comum a ARTM ainda não dispõe de meios materiais e recursos humanos que lhe permita apoiar um vasto leque de actividades no desporto escolar. Em conjunto com o GCDES – Gabinete Coordenado do Desporto Escolar da Madeira, realizaram-se algumas acções de promoção/demostração do triatlo nas escolas, que obtiveram um sucesso assinalável, confirmado pelo facto de várias escolas terem contactado a ARTM, no sentido da programação de actividades Escolares de Triatlo, Duatlo e Aquatlo no próximo ano lectivo, actividades essas que procuraremos apoiar, de acordo com as nossas possibilidades, sempre em coordenação com o GCDE e FTP.
Nesta área o objectivo pretendido pela ARTM, é o de criar dinâmicas e protocolos com o GCDE e Escolas da RAM, no sentido de colocar a modalidade num patamar de prática regular nas actividades de desporto escolar, nas principais escolas da ARTM.
Temos consciência da importância e ambição deste processo, o que nos leva a ser coerentes, a responder aos pedidos dentro das nossas capacidades e mantendo um padrão de qualidade elevado, nessas mesmas acções.
- Presentemente quantos Escolas de Triatlo estão em actividade na Madeira e qual o número de aderentes? E o Programa Tri-Escola tem tido a simpatia dos professores?
Neste preciso momento existem três escolas de Triatlo, a funcionar de acordo com os programas da Federação de Triatlo de Portugal, totalizando 60 jovens atletas. Estão em processo de formação mais duas escolas, que iniciarão a sua actividade oficial na ápoca de 2010, o que nos deixa muito orgulhosos, pelo facto da modalidade e do número de praticantes estar a caminhar para uma “pirâmide”, onde a maioria doa atletas são dos escalões jovens, o que deixa boas perspectivas para o futuro da modalidade na RAM. Quanto ao número de escolas previsto para 2010, o Triatlo e Madeira e o pais, julgo que deverão estar orgulhosos, pelo facto da Madeira ser uma das regiões do pais com o maior número de escolas de Triatlo.
- Vale a pena estudar e alimentar o sonho de ser um atleta de elite em Portugal, atendendo às dificuldades financeiras, logísticas, físicas, entre outras?
Sem sombra de dúvida julgo que si. Se somos levados a pensar que deveremos ter as condições, X, Y e Z, para lá chegar, é melhor “esperarmos sentados”. Julgo que o caminho a seguir será o de perspectivar a carreira dos atletas de maior talento (sem descurar os outros, que não ambicionam chegar a um patamar elevado em termos competitivos), por fazes de acordo com os progressos dos atletas, o seu enquadramento social e escolar e obviamente todo o “meio” envolvente “Associação, Clubes, Técnicos, Pais”, etc. Sem esta conjugação de factores e interesses e apoios, dificilmente um atleta chegará a um nível de excelência.
- O objectivo de todos é chegar o mais longe possível, pelo que terá de se percorrer um longo caminho trabalhando muito para se conseguirem determinados objectivos. Como Director Técnico Regional já foram alcançados alguns desses objectivos?
Como refere, apenas alguns. Passo a enumerá-los:
A modalidade já dispõe de técnicos formados pela Federação a desenvolver um trabalho de qualidade, desde à dois anos;
A RAM, dispõe de um excelente parque desportivo, nomeadamente piscinas em todos os Concelhos, estando esses mesmos espaços à disposição dos clubes com a modalidade de Triatlo;
Existem Escolas de Triatlo a trabalhar especificamente na formação de atletas, razão pela qual poderemos esperar frutos desse trabalho dentro de dois a três anos;
O número de atletas está a aumentar com alguma naturalidade, o que possibilitará um maior leque de selecção dos atletas de maiores capacidades para evoluir na modalidade;
Os principais clubes regionais estão a desenvolver processos de apoio à modalidade em termos materiais e humanos, o que reforça a possibilidade de obtenção de bons resultados no futuro, assim como reforçará a qualidade da formação dos atletas em geral.
- Em Portugal não existe competitividade que permita aos jovens triatletas evoluírem, pelo que teriam que sair do país, para poderem crescer desportivamente e assim competir ao mais alto nível. Esta situação, quando poderá ser contrariada?
Não estou de acordo com a sua afirmação. Temos que olhar como cidadãos portugueses, para a dimensão do nosso país e da “nossa” modalidade. Obviamente, se o modelo de comparação for as grandes potências mundiais do triatlo (ex: Reino Unido, Austrália, etc), temos ainda um longo caminho a percorrer. Contudo julgo que a modalidade poderá continuar a produzir atletas de alta qualidade no país, talvez num número menor face a outros países, mas com possibilidade de competir a alto nível.
É obvio que a competição internacional regular é fundamental, mas teremos que “viver e trabalhar” com os meios existentes e “esperar por melhores dias” e maior volume nos apoios, quaisquer que sejam.
- Para uma regular competição internacional, justificar-se-ia um Centro de Treinos de Alto Rendimento, na Madeira, com espaços devidamente apetrechados e exclusivos?
Há muito que se fala nessa possibilidade. Julgo que poderá ser um salto não só para o Triatlo, mas também para outras modalidades. Na Madeira e pelo facto das distâncias físicas serem relativamente próximas, assim como pelo facto da existência de várias instalações a curta distancia, a existência de um CAR, poderá ser discutida.
Se somos levados a pensar numa situação ideal, concordo que poderá existir esse espaço. Contudo existirão sempre algumas limitações, nomeadamente nas questões da orografia da Ilha, que condiciona o trabalho na vertente do ciclismo, aos atletas da Madeira.
- Comparativamente com países europeus de grande dimensão competitiva, Portugal tem ainda um número muito reduzido de triatletas federados. Qual será a solução, para que haja uma substancial aderência de novos praticantes?
Mais e melhor trabalho entre todos os intervenientes: FTP, Associações, Clubes, Técnicos, etc. O crescimento “explosivo”, pode ser contraproducente para o crescimento da modalidade. Há que crescer, sim, mas com capacidade de resposta, face à especificidade organizativa da modalidade. Estando todos os intervenientes devidamente apetrechados para dar essa resposta, julgo que a modalidade crescerá através da qualidade da formação, do espectáculo (real) e de uma cada vez melhor divulgação e comunicação.
- A juventude mundial não quer competir, não se quer esforçar. Também a situação é idêntica com os jovens da Madeira?
Falarei apenas da modalidade que represento. Sem sombra de dúvida que é visível esse fenómeno, também no Triatlo. Julgo que uma das soluções será a qualidade da formação global dos atletas, nunca descurando a formação simultânea dos pais, estes muitas vezes sem a percepção da importância do desporto, como factor da formação, social, desportiva e física dos seus filhos.
Não poderemos esperar o mesmo desempenho e capacidade de trabalho de todos. Existirão sempre os que se adaptam melhor a esta modalidade e outros com mais dificuldades.
Há que trabalhar com todos, porque por vezes os mais discretos num dado momento, poderão “despertar”, para níveis elevados de prestação desportiva e outros aparentemente mais capacitados, podem estagnar. Os processos de formação nesta área também são complexos, razão pela qual deveremos estar atentos ao trabalho com os jovens, em todos os momentos.
- Para conseguirmos desenvolver uma eficaz formação e cultura desportiva e criarmos condições para um desporto organizado, que sirva a grande maioria da população juvenil, o que teremos que fazer?
Várias tarefas, das quais inúmero apenas alguns, no meu ponto de vista:
1 - Trabalhar com a família uma determinada modalidade (ex: triatlo), país e filhos;
2 - Desenvolver projectos atractivos, do ponto de vista da motivação dos atletas, nas diversas fazes da sua juventude, procurando (não é nada fácil), ir de encontro as suas motivações;
3 - Criar um forte espírito de grupo, ou seja, procurar que o grupo de trabalho seja uma família para todos, que esta seja o espaço para além da família e doa amigos, onde os jovens possam se sentir valorizados, sento todos diferentes entre si;
4 - Entre as entidades públicas e privadas, directamente ligadas ao desporto, há que reforçar a aposta na formação dos mais jovens, e em projectos integrados de formação dos atletas;
5 - Formar os jovens apoiando-os, mas também incutindo o dever da responsabilidade, com direitos, mas também com deveres, …, só assim poderemos aspirar a formar grandes homens e mulheres, mas também grandes atletas.
- Atendendo à política social e económica do país, onde a educação está longe de atingir níveis de alta qualidade vê alguma possibilidade do desporto, nomeadamente o competitivo ajudar os jovens, a cumprir determinadas regras comportamentais?
Do meu ponto de vista, o desporto é uma dos principais caminhos (com processos multilaterais de integração e desenvolvimento dos indivíduos), a seguir, sendo a meu ver imprescindível, em qualquer sociedade ou meio onde os jovens estejam integrados. Os intervenientes no processo desportivo, terão sempre que rentabilizar ao máximo as várias capacidades, visto que os meios serão sempre escassos para as tarefas da formação, inclusive a da formação desportiva.
- Cada vez mais a vida dos portugueses tem vindo a mudar, pelo que nos deveremos estruturar, para acompanharmos essa situação. Com os jovens com que trabalha essa realidade é significativa?
Sem sombra de dívida. Existe a obrigatoriedade de nos adaptarmos e prepararmos face à actualidade e à realidade. Como por vezes afirmamos na Madeira “não podemos dar o passo maior do que a perna”, logo temos que nos adaptar constantemente. Tomado por exemplo a Escola de Triatlo do Ludens, nos dois últimos anos, esta escola aumentou o leque de escolha dos horários e locais de treinos (Piscina e Pista de Tartan), para todos os escalões de forma (é possível aos atletas treinar de manhã ou à tarde na piscina, de acordo com o escalão e plano de trabalho aplicado pelos técnicos), a poder responder à necessidade e flexibilidade dos seus atletas, na formação extra-escolar (escolas de línguas, música, etc). Os atletas dispõem da possibilidade de adaptar a prática desportiva aos seus horários e actividades, obrigando contudo que os mesmos sejam mais rigorosos e cumpridores dos horários estipulados. Neste âmbito a exigência funciona gradualmente nos dois sentidos, entre os técnicos e os atletas /família. O Ludens também passou a dispor de transporte próprio (carrinha de 9 lugares), o que facilita as deslocações necessárias, etc.